O que é Artrose :


A artrose é o envelhecimento da articulação (junta). Assim como os cabelos ficam brancos, as juntas desenvolvem a artrose. Claro que isto é uma analogia e portanto imperfeita.
Mas assim ocorre: com o passar do tempo, nosso organismo sofre transformações. Estas transformações estão, em vários níveis, relacionadas com a química do organismo e também com o uso, o trabalho dado a cada junta.


Nós somos gerados de uma única célula oriunda da união de dois gametas haplóides (com metade do DNA). Isto é mais do que conhecido de todos. Esta célula vai-se reproduzindo e formando muitas até a existência do organismo inteiro. E a produção de novas e novas células continua acelerada durante toda a fase de crescimento. Neste período, o corpo humano produz mais células e materiais orgânicos do que os perde. Se num dia de muita atividade física


Quadril com artrose grave: dor constante e movi-
mentos restritos.
Paciente anterior após artroplastia
total do quadril (colocação de prótese): caminha normalmente, dirige
automóvel, faz exercícios, não tem dor.
Artrose de coluna no nível L4-L5, com dor constan- te que mantinha a paciente na cama.
Após cirurgia para artrodese do nível acometido, retornou às atividades normais.
 
perdemos uma infinidade de componentes do músculo, cartilagens das articulações, mesmo partes dos ossos (microscópicas), durante o período de repouso que se segue, isto tudo é reposto e ainda mais é feito. Terminado o crescimento, entramos numa fase de equilíbrio, em que o organismo procura repor o que é perdido por alguma forma de desgaste.

A fase seguinte é aquela em que gradativamente vamos tendo mais perda do que reposição. Vai variar de pessoa para pessoa, estilo de vida, dieta, doenças genéticas ou não, acidentes, infecções, etc.

Do ponto de vista químico, observa-se uma crescente desidratação dos componentes do corpo, como consequência da oxidação crescente, o que reflete na perda progressiva de turgor e elasticidade, além de uma tendência à estruturação, isto é, formação de arranjos estáveis entre as moléculas.

Vou trocar em miúdos: à medida em que progride a oxidação das moléculas de colágeno (lembram-se dos anti-oxidantes) as estruturas colágenas (a materia prima de que é feita a armação do corpo) vão perdendo flexibilidade, isto é, capacidade de se deformarem e voltarem ao estado original, quando o estímulo à deformação cessa. Com isto, elas tendem a se partirem quando sofrem deformação sobre deformação, sem capacidade de se restaurarem na forma original. Por outro lado, as estruturas alteradas e deixadas na nova posição,tendem a se imbricarem, ou se encaixarem nas novas posições, estruturando-se nelas, ou seja, "acostumando-se" nas novas posições de maneira permanente. Com este panorama feito, vamos pegar o exemplo de uma articulação, por exemplo o joelho, em diferentes fases da vida.

Uma criança tem um joelho composto de 3 ossos, ligamentos, cartilagem, meniscos, memebrana sinovial, tendão, cápsula e músculos. A camada de cartilagem é espessa, turgida e flexível, os ligamentos e meniscos são elásticos. E a sua capacidade regenerativa está no máximo. Dessa forma, dos muitos traumas que sofremos na infância, caindo e batendo, poucos deixam sequela na idade adulta. Voês já leram sobre lesão meniscal em algum jogador de futebol da categoria juvenil? Eu, não conheço.

Um jovem adulto já tem menor capacidade regenerativa, menos elasticidade. Nesta fase começam aparecer lesões, algumas com carcterísticas permanentes. São conhecidos os casos de lesão de menisco em jogadores de futebol, mesmo jovens. Seu treino mudou em relação à fase juvenil, na qual se preparava para o nível seguinte? Não, seu corpo mudou. Houve perda de elasticidade facilitando a produção de lesões.

Outra lesão comum, ocorre na cartilagem : as lesões condrais, as osteocondrites. São pequenas áreas de cartilagem que se despregam do osso, dentro da articulação, e em muitos casos não se colam de volta no lugar de onde saíram. Isto ocorre porque a cartilagem sofreu uma deformação maior do que sua capacidade de retornar à forma original e acabou arrebentando em uma das extremidades. Veja que a magnitude da deformação precisa ser maior no indivíduo mais jovem para haver ruptura. Por outro lado, traumas progressivamente menores causam lesões irreversíveis à medida que a idade avança.

Ao nos afastarmos do fim da fase de crescimento, cada vez mais a capacidade regenerativa vai diminuindo. O que é gasto na atividade física de qualquer tipo é cada vez menos abundantemente reposto. A cartilagem articular vai perdendo cada vez mais em fibras colágenas, glicosaminoglican, e moléculas de água. Com isto ela fica menos túrgida, portanto (como um pneu murcho) com menos capacidade de amortecer impactos e ao mesmo tempo, por ter menos fibras, com menos resistência. Nos períodos de repouso, o aporte de água poderá restituir-lhe o turgor, mas o número reduzido de fibras não reterá a água quando for submetida a pressão. E o desgaste gerado pelo atrito prosseguirá, tornando-a mais fina. Segue a produção (reposição) diminuída, assim sucessivamente, predominando o desgaste, o afilamento da cartilagem. Dentro deste contexto, devemos lembrar também outras consequências do desequilíbrio entre produção (reposição) e perda, com o predomínio da perda. Os ligamentos estão menos flexíveis, menos hidratados e menos móveis.

Expandindo mais um pouco o panorama visual, lembramos que o indivíduo tende a reduzir atividades à medida que os anos passam, além de acrescentar peso. O indivíduo mais parado tem menos estímulo produtivo: o corpo sente-se estimulado a produzir o que é solicitao, por exemplo, músculo quando se faz ginástica, reforço nos tendões quando estes são exercitados.. Por outro lado, o que tende à imobilidade, tende a se atrofiar, se organizar, se estruturar naquela posição. Por exemplo, se uma perna quebrada for deixada imóvel na posição errada por tempo suficiente, a mesma vai-se consolidar na posição errada. Da mesma forma, as posições que se desenvolvem à medida que as articulações se deformam vão tendendo a se estruturarem, a ficarem fixas naquela situação.

Um outro fenômeno que se observa com a progressão da idade é a tendência de tecidos com parentesco próximo tenderem para uma vertente. Explicando melhor, quando somos gerados, de uma única célula, passamos para a etapa seguinte, um grupo de células, e finalmente elas se agrupam em tribos distintas: ectoderma, mesoderma e endoderma. Os ossos, tendões, cartilagens, e músculos têm origem na mesoderme, por isso "são parentes próximos", e têm capacide e facilidade de se calcificarem. Isto explica o aparecimento de áreas calcificadas por exemplo nas bordas da superfície articular do joelho quando a artrose se instala. Você encontra no laudo da radiografia, além do tradicional "redução do espaço articular", o seguinte diagnóstico: osteeófitos marginais. São pontas de osso novo, que não existiam ali antes, e que começam a se desenvolver em fronteiras de osso e cartilagem ou de osso e ligamento (são desta família os bicos de papagaio e os esporões de calcâneo).

Como se vê, a artrose é apenas o quadro final de um longo processo de desgaste e envelhecimento articular. A manutenção da força física, da amplitude de movimento das articulações, bem como a coordenação motora são alguns dos meios de que se pode dispor para atrasar as manifestações da artrose.
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